quinta-feira, 6 de junho de 2013

Mulher, a mais triste construção social

Eu não escolhi ser mulher, e ainda não escolho hoje.


Minha escolha por ser mulher não se refere as minhas características físicas, como órgão reprodutor e seios, me refiro à criação social em que o gênero "mulher" se encontra.
Desde que nascemos já crescemos com formações obrigatórias, roupas, brinquedos, a presença do cor de rosa, e isso piora quando você cresce e tem que atender as exigências do mundo, revistas, novela, maquiagem, salto alto, vestido, casamento...
Ocorre que a mulher dentro dessa construção social na qual está inserida, desde sempre é sugerida com o ser que deve dar satisfações, e se submeter ao homem.

 "De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos". Efésios 5:24

"Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor;”. Efésios 5:33.
 
Então, o mundo tem caminhado desde sempre de modo patriarcal, misógino, sexista e diversas religiões ainda ajudam a aumentar esse tipo de afirmação, alienando pessoas e indicando que a mulher é símbolo de pecado e fonte de todos os tipos de males presentes ao longo dos anos e que deve ser submissa ao homem.
O que justifica o fato de que ao longo dos anos, diversas mulheres tem sofrido os mais diversos tipos de abuso por parte dos homens, inclusive de seus companheiros, agressões que vão de verbais, beliscões, tapas, e até sexo foçado com o próprio marido.
Porém, após tantos casos, aqui no Brasil, no dia 22 de setembro de 2006 entrou em vigor a Lei Maria da Penha, que nasceu à partir da denúncia de uma mulher, Maria da Penha Maia Fernandes, que sofreu agressões domésticas diariamente por parte de seu esposo, durante seis anos de casamento. Hoje, Maria da Penha é paraplégica, por conta da agressões que sofreu nesse período e seu esposo foi preso no dia seguinte, após a lei entrar em vigor.
Isso foi um grande passo em relação à defesa da mulher, mas ainda não é tudo. A lei é bem recente e os agressores não ficam presos por muito tempo, e a mulher, se não é atendida em uma delegacia da mulher, é atendida em alguma outra com um homem que é tão machista quanto o mesmo que a agrediu e que com certeza não vai se preocupar tanto com o ocorrido e claro, lançar sobre a vítima a culpa do que aconteceu (não saiu de casa porque não quis, escolheu o marido errado, apanha porque gosta e tantos outros...)
Por conta de todos esses fatores e tantos outros mais é que muitas mulheres ainda são agredidas, se sentem humilhadas em procurar apoio, até mesmo da própria família. Também ocorre o terror psicológico em que a vítima se encontra depois, o medo de sofrer algum tipo de agressão constantemente e o fato de não saber se vai se relacionar com outra pessoa sem ter certeza de que ele não pode ser um agressor.
A luta contra isso deve ser constante, os grupos de apoio à causa da mulher tem crescido, mas infelizmente não parecem observar os dados e nem sempre agem da maneira certa. Dentro do meio libertário, punk, anarquista, hardcore e de diversos coletivos, ainda se encontram pessoas que pensam que o homem e a mulher possuem diferenças, que a mulher é um ser inferior, mais frágil.
Ontem recebi uma carta aberta de Kamili Picoli, que é de Sorocaba e fazia parte do coletivo Castelo Fora do Eixo e colaborava para o mesmo juntamente com Pedro Pacheco, seu companheiro na época, ocorre que essa carta denúncia justamente os ocorridos no período de relação de ambos e depois sobre a última agressão após a separação dos dois, quando a mesma estava a se relacionar com uma outra pessoa, que foi tão omissa quanto, que a deixou ser agredida pelo antigo companheiro.
Acontece que ao compartilhar minha visão sobre isso e acompanhar a visão de outras pessoas quanto a isso me deparei com pessoas que fazem parte desse meio de hardcore, que se dizem libertários e que apenas afirmaram que era preciso ouvir os dois, que era preciso saber o grau das agressões e ainda outros dizendo que eram amigos do cara e que ele não faria algo assim, que a garota devia estar inventando coisas e ainda os que curtiram a atualização de status do mesmo, quando ele disse que os fatos deviam ser apurados.
Então, decidi escrever aqui sobre esses ocorridos, sobre essa postura de homens e mulheres que conheço e que acham que essas afirmações são coerentes, decidi escrever para expor minha decepção em relação a cena hardcore, punk, libertária, meu sentimento de tristeza, porque não há nada mais triste ver pessoas que deviam fazer a diferença se rendendo tão fácil ao senso comum, somente porque se trata de alguém que organiza eventos dentro desse meio, tem contatos e recursos financeiros.
É preciso entender que em uma situação de agressão física em relação à mulher, não é preciso ouvir os dois lados, não se precisa saber porque o agressor a agrediu, porque ele já está errado só pelo fato de ter agredido.
Não há nível de agressão, se ela for verbal, física, psicológica, se for um beliscão ou uma surra, deve ter o mesmo peso.
É importante pensar, se a mulher, essa construção social absurda, vem sendo inferiorizada por anos, vem sendo oprimida diariamente por todos os meios possíveis, se essa mulher é agredida por um homem que não sofre e nunca sofreu nada desse terror diário, ao qual somos mantidas, não é preciso escutá-lo. Porque nada vai justificar uma agressão.




 "Pensei seriamente sobre postar ou não algo sobre isso, mas não posso achar que não tenho nada a ver com isso só por não ter mantido contato com ambos anteriormente e que a vida é deles e não tem ligação com a minha, porque é da minha conta sim!
E sabem porque? Porque eu sou mulher, porque eu sofro diariamente com os piores ataques do mundo, porque para a maioria das pessoas, eu sou inferior. E por não querer me ver dentro de um meio formado por machistas que se fingem de libertários e de posições feministas, não quero me ver rodeada de homens e mulheres que vivem de uma maneira e discursam outra.
Então isso tudo é da minha conta também"

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Som de Preto





Me lembro que em 2011 em um show do Marcelo Yuka, que aconteceu em São Paulo, no evento Black na cena, ao falar sobre o funk carioca, esse gênero musical que é tão nosso e que muitos ainda tentam repreender, Marcelo Yuka disse que ele dominaria a massa, a elite e que no futuro, em alguns anos, chegaria a atingir o mesmo nível que o samba, afinal, ouvir samba hoje é pra quem tem cultura, mas quando o mesmo nasceu lá no morro, não era e assim como o funk carioca, também foi repreendido.

Não é raro se deparar nas redes sociais, no decorrer do dia, nos comentários do metrô ou no olhar reprovador das pessoas, o preconceito contra o funk.
Entre os últimos exemplos abertos que tivemos disso, podemos citar os comentários da jornalista Rachel Sheherazade que além de falar sobre o gênero musical definindo-o como  Funk carioca, que fere meus ouvidos de morte, foi descrito como "manifestação cultural".
Além disso, a mesma acha um absurdo o fato das classes C e D "popularizarem" os centros acadêmicos. O que mais me surpreende é o fato de que essa jornalista, trabalha para um público que pertence a essas classes sub-jugadas.



Além do fator, discriminatório das letras, ainda acontece a discriminação em relação a quem ouve o gênero musical, que ou é classificado como traficante ou ladrão, e no caso das mulheres como prostitutas, vagabundas, ou com o termo piriguete que hoje engloba tudo isso, aquele termo que a Rede Esgoto Globo de televisão insiste em reforçar nas suas novelas e programas como Lixo Zorra Total.

A elite da cidade de São Paulo, em especial, parece querer que todo o mundo
caminhe dentro de seus padrões, envolvidos em músicas de Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius, e que não tenham a liberdade de criar sua própria forma de expressão. Isso vem de uma cultura que começou com os negros que não podiam ter suas próprias crenças no passado, e precisaram se adequar ao cristianismo. O que mostra que ainda vivemos em um ritmo de repressão e nesse caso, de segregação sonora.
Um exemplo disso é que reclama do barulho que o baile funk causa, e quando alguém pensa em criar barracões como os do Rio de Janeiro, para esse tipo de evento específico, reclamam do fato da criação desse espaço, mas diz que todos deviam ter acesso a cultural. A cultura de quem? A da elite apenas?
É a mesma galera que tem medo que o metrô em Higienópolis leve gente "diferenciada" ao bairro, mas sempre fala que o metrô aqui devia ser como em Paris que percorre a cidade inteira e nunca se muda definitivamente pra lá.
A elite de São Paulo está é com medo, por que gosta de ditar as regras, e parece que a periferia está fugindo disso, falando sobre a própria e sua própria cultura. A elite parece não gostar de saber que há outro universo além de seu próprio umbigo.

Entende-se que em alguns casos, as letras do funk carioca não são tão boas, e podiam ser melhor aproveitadas, e mais ações podiam existir em prol dessa descaracterização negativa do gênero. Acredito e torço para que elas venham logo. Quanto aos que reclamam, se incomoda tanto, não seria digno sair um pouquinho das baladas de terça-feira e ir até a favela dar aulas de música, incentivar leitura, arte e lazer para agregar mais coisas ao que já se têm por lá?



Esse movimento contra o funk, é o mesmo movimento que aconteceu contra o samba, contra o rap, contra o axé, contra o tecnobrega, e contra tudo o que nasce na periferia. Hoje uma parcela da elite frequênta shows em grandes casas que recebem artístas como Criolo, que antes era Criolo doido, Black Alien, Marcelo D2, Emicida, Bnegão ou Racionais, mas se esquece, que aquilo também é música de negro, nascida do morro. E ainda acham o máximo tirar onda de "favelado", mas se cagam só de pensar em entrar na biqueira pra comprar pó.

É som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguem fica parado
Som de Preto - Dj Marlboro







Crédito das fotos: “Totoma! – Imagens do funk carioca” no Sesc Tijuca

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Liberdade: É o direito de fazer o que quer

Me lembro de quando era mais nova e de quando comecei a ir a alguns shows, de como era divertido essa coisa de participar de algo em que eu realmente acreditava e me sentir parte daquilo, além de uma série de coisas que foram super importantes para o meu desenvolvimento e formação quanto humana. Depois de um tempo comecei a conhecer diversos rolês, outras pessoas, outros sons e chega uma hora na sua vida onde você vê que não precisa provar nada para ninguém, que nunca precisou, que sua roupa não vai definir seu caratér ou que seu sapato não é o que dita sua postura. Nesse meio de descobertas, e vivências, saídas pelos botecos antes de toda essa especulação imobiliária da Rua Augusta, e do baixo centro, idas ao Espaço Impróprio e posteriormente ao Sattva Bordô, acabei ficando um período sem ir ao Hangar 110 por algum tempo, lembro que a última vez que fui lá foi em meados de 2009.
Soube que no fim de semana 06 e 07/04 haveria show do Dead Fish, combinei com uma amiga e fomos no sábado, já que eu iria ao Bad Brains sexta, e era pra se sentir com coração de adolescente novamente, tudo seria feito em sequência e separei o fim de semana para isso.
Fomos, e na porta aquela mesma sensação de início de rolê no Hangar, a diferença é que estávamos mais velhas e encontrar amigos seria uma tarefa mais difícil, que a alguns anos. Entramos, casa cheia, o que era de se esperar, bandas de abertura e a galera animada, achamos um espaço na lateral esquerda do palco e fomos.
Dead Fish entrou, e o show correu como era de se esperar, som animal, pessoal agitando e pulando do palco, até que quando eu observo bem o palco percebo que algumas meninas que subiam para pular, sofriam de um abuso por parte de alguns caras, não dava pra saber direito quem era, ou quantos, só deu pra ver direito mesmo um que ainda ficou rindo enquanto eu ficava constrangida do canto a distância, vendo aquilo.
Nessa hora se passou na minha cabeça a mesma idéia que se passou entre os amigos quando comentei com eles, "Pô! 2013 e ainda tem uns otários que fazem isso", "Não sei se você lembra, mas uma vez o Dead Fish gravou no Hangar 110 e falou sobre isso, ai o mesmo público vai e continua cagando na coisa toda".

Sempre ouço as pessoas falando de hardcore, união, aprendizado, respeito, postura, atitude e diversos outros lemas que criam para se definir quanto independentes, mas muitos continuam com a necessidade de provar para o mundo que o tênis que usam é de uma marca mais legal, que a camiseta que usam é de uma banda mais incrível do meio hardcore e nessa situação entra uma breve reflexão sobre aquilo que eu disse no início sobre provar para os outros o que você é, alguns caras precisam até provar que conseguem se aproveitar das garotas uns paras os outros, o que é lamentável. E ao que parece, realmente acham aquilo engraçado.
Triste é saber que uma porcentagem desses falam mal das meninas que vão aos bailes funks, falam das ditas piriguetes e se aproveitam de garotas que só querem curtir o mesmo som que eles. E se os familiares dessas meninas estivessem ali? Não posso julgar quem vai a bailes funks ou qualquer outro tipo de ambiente diferente do meu, mas sei do que muitos dizem sobre essas pessas por aí e vejo uma parcela desses agindo de uma maneira que julgam ser errada fora de seus ambientes, ou ainda pior que a desses demais ambientes. Sabe por que? Vai tentar passar a mão em uma garota no funk sem ela te autorizar pra você ver o que acontece, rapaz!
Sobre o ambiente, fiquei pensando que o Hangar 110 como uma casa de show, que até onde sei é séria, deve ter as mesmas responsabilidades de qualquer outra casa, ou balada ou qualquer coisa do gênero, em relação a uma pessoa que é agredida fisicamente, porque sim, isso é agressão física, além de um abuso muito sério, e bem, embora seja uma quantidade grande de pessoas, talvez alguns cuidados devam ser tomados.
Eu obviamente não me senti a vontade para comunicar ninguém, até porque, expor alguma dessas garotas dessa forma seria errado da minha parte, ainda mais sem ter certeza de quem eram os babacas.Provavelmente, se alguma delas percebeu isso, com certeza sabe que isso não é algo legal e sabem o quanto é constrangedor compartilhar com alguém, sem saber até que ponto isso realmente será levado ou não a sério.
Sobre o Dead Fish, não tenho um desejo gigante de que isso chegue aos olhos deles, que me contatem para falar sobre, ou qualquer coisa do tipo, mas espero mesmo que o público que costuma ir aos shows, em especial os mais novos, mudem, não falo sobre crescer e quando atingir a maior idade e estiverem com suas namoradas, ao olhar para trás vejam o quanto suas atitudes foram idiotas, machistas e tristes. Espero que mudem agora, a tempo de não precisar olhar para trás e precisar analisar suas atitudes idiotas, machistas e tristes.
Liberdade: É o direito de fazer o que quer. Até mesmo pular do palco no meio da galera, sem que se aproveitem do seu corpo. 
Forte Abraço


segunda-feira, 11 de março de 2013

Força David!

Ontem, antes de ir ao Queers & Queens acessei a internet para adiantar alguns trabalhos da semana e me deparei com uma notícia trágica que me deixou até agora em estado de horror. Um ciclista foi atropelado na Av. Paulista as 5h da manhã e seu braço havia sido decepado em meio aos estilhaços de vidro. O motorista, fugiu do local, pegou o braço do rapaz e jogou no bairro do Ipiranga em um córrego. Essa parte em especial, foi a que me deixou em estado desesperador, que é o que me encontro até agora. Ainda nisso de acessar a internet e falar com algumas pessoas sobre o ocorrido, descobri que o ciclista é primo de um amigo meu e que estava indo para o trabalho quando sofreu atropelamento.
Fiquei e ainda estou aqui imaginando como estão as famílias e a cabeça dos envolvidos diretamente. O ciclista David tem 21 anos e o motorista Alex Siwek, 22. Idades próximas, próximas inclusive da minha idade, vidas, realidades e rotinas diferentes. Inclusive parece até que toda vez que algo assim acontece as realidades sempre são diferentes e alguém sempre é mais prejudicado que o outro.
Apesar de todos esses pensamentos, o objetivo desse post não é julgar o motorista, mas é que se pense que os esforços não devem parar. Avaliando também o pensamento de pessoas que acreditam que não se deve pedalar em grandes avenidas, devo dizer que temos ciclofaixas e essas devem ser respeitadas justamente para evitar situações como essas.
Resistir é importante!

Em todo o caso, não sei o que me comoveu mais, a proximidade com a pessoa, comprovar novamente que estamos tão vulneráveis ou que há ainda pessoas que continuam a perder seu senso de humanidade. Espero que o motorista consiga entender a gravidade do ocorrido, que recuperação do David seja rápida e que tudo se resolva da melhor maneira para ele.
Força David!




Paciência é a sapiência do espírito.


terça-feira, 23 de outubro de 2012

863 índios se suicidaram desde 86… e quase ninguém viu ou soube

Já havíamos falado anteriormente por aqui sobre a situação triste e miserável dos nossos índios, sobre terem tomado suas terras, sobre as mortes e sobre a exploração, agora contínuamos a seguir uma situação lamentável no Mato Grosso do Sul.

Por Bob Fernandes:


Nas últimas semanas, além do futebol de sempre, dois assuntos ocuparam as manchetes: o julgamento do chamado "mensalão" e, na campanha eleitoral em São Paulo, o programa de combate à homofobia, grotescamente apelidado de "Kit Gay". Quase nenhuma importância se deu a uma espécie de testamento de uma tribo indígena. Tribo com 43 mil sobreviventes.

A Justiça Federal decretou a expulsão de 170 índios da terra em que vivem atualmente. Isso no município de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, à margem do Rio Hovy. Isso diante de silêncio quase absoluto da chamada grande mídia. (Eliane Brum trata longamente do assunto no site da revista Época nesta segunda-feira, 22). Há duas semanas, numa dramática carta-testamento, os Kaiowá-Guarani informaram:

- Não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui, na margem do rio, quanto longe daqui. Concluímos que vamos morrer todos. Estamos sem assistência, isolados, cercados de pistoleiros, e resistimos até hoje (…) Comemos uma vez por dia.

Em sua carta-testamento os Kaiowá-Guarani rogam:

- Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido aos juízes federais.

Diante dessa história dantesca, a vice-procuradora Geral da República, Déborah Duprat, disse: "A reserva de Dourados é (hoje) talvez a maior tragédia conhecida da questão indígena em todo o mundo".

Em setembro de 1999, estive por uma semana na reserva Kaiowá-Guarani, em Dourados. Estive porque ali já se desenrolava a tragédia. Tragédia diante de um silêncio quase absoluto. Tragédia que se ampliou, assim como o silêncio. Entre 1986 e setembro de 1999, 308 índios haviam se suicidado. Em sua maioria, índios com idade variando dos 12 aos 24 anos.

Suicídios quase sempre por enforcamento, ou por ingestão de veneno. Suicídios por viverem confinados, abrutalhados em reservas cada vez menores, cercados por pistoleiros ou fazendeiros que agiam, e agem, como se pistoleiros fossem. Suicídios porque viver como mendigo ou prostituta é quase o caminho único para quem é expelido pela vida miserável nas reservas.


Italianos e um brasileiro fizeram um filme-denúncia sobre a tragédia. No Brasil, silêncio quase absoluto; porque Dourados, Mato Grosso, índios… isso está muito longe. Isso não dá ibope, não dá manchete. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, o índice de assassinatos na Reserva de Dourados é de 145 habitantes para cada 100 mil. No Iraque, esse índice é de 93 pessoas para cada 100 mil.

Desde fins de 1999, quando, pela revista Carta Capital, estive em Dourados com o fotógrafo Luciano Andrade, outros 555 jovens Kaiowá-Guarani se suicidaram no Mato Grosso do Sul, descreve Eliane Brum. Sob aterrador e quase absoluto silêncio. Silêncio dos governos e da chamada mídia. Um silêncio cúmplice dessa tragédia.



Nos perguntamos, até quando?

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

IDEIA X AÇÃO: Valorizando a Quebrada II


Da ideia para a ação...


O Espaço Cultural Doutora Nathália Pedroso Rosemburg, está localizado em frente a pista de skate da Praça do Campo Limpo, que fica no bairro de mesmo nome zona sul de São Paulo - SP. 

No espaço, hoje funciona o Telecentro Nathália Rosemburg e lá ocorrem também algumas outras atividades voltadas ao público em geral.
Porém, muitas pessoas que no passado já frequentaram o local, não tem conhecimento de que ele ainda existe está funcionamento, sem contar os que nunca frequentaram pois passam despercebidos por ali.

Deste modo, nós do Coletivo Meinhof propomos ao espaço o evento "Valorizando a Quebrada II", que ocorrerá das 10h às 18h de 21/10/2012 (domingo), no qual disponibilizaremos muros e pilastras do pátio para grafite ao som do Sound System Quilombo Hi-fi.

O nosso foco é valorizar o espaço do centro cultural, seus arredores que aos poucos foram esquecidas pelo povo (... sem contar descaso do poder público municipal). E é claro, compartilhar a arte da quebrada com a quebrada.   

Contamos com a presença e colaboração de todos! 


  •  Grafite à partir das 10 horas
  • Quilombo Hi-fi à partir das 14 horas

O Espaço Cultural está localizado em frente à pista de skate da Praça do Campo Limpo.

Obs: Não é permitido fumar "no local", então, aproveitem a praça :)


Como chegar:

- Centro/Paraíso/Ana Rosa/Pinheiros: 
Pegar qualquer ônibus "Terminal Campo Limpo", descer no terminal e caminhar até a praça - Aproximadamente 5 minutos.

- Santo Amaro:
1º Pegar o ônibus "Terminal Campo Limpo", descer no terminal ou um ponto antes e caminhar até a praça - Aproximadamente 5 minutos.

2º Pegar o Metro da Linha Lilás, descer na Estação Campo Limpo, se informar e pegar na integração qualquer ônibus que passe pela praça.

- Valo Velho, M'Boi Mirim, Jd. Angela e Capão Redondo:
Pegar o ônibus "Terminal Campo Limpo", descer no terminal ou um ponto antes e caminhar até a praça - Aproximadamente 5 minutos.

Quanto ao endereço:

Espaço Cultural Doutora Nathália Pedroso Rosemburg
Endereço: Rua Aroldo de Azevedo, 100 - Praça do Campo Limpo (em frente a pista de skate), São Paulo/ SP

sábado, 8 de setembro de 2012

Depressão contemporânea


Quando penso nos humanos, nos imagino dentro de cadeias que nos são dadas desde nosso nascimento, você precisa ter um emprego de segunda à sexta-feira para poder fazer nada no final de semana, reclamar da segunda, ir a praia no carnaval juntamente com a metade da sua cidade e fazer promessas de ano novo, imaginando que as coisas mudam por causa do ano e não por você. Fui comer com uma amiga na última quarta-feira, e como o lugar mais próximo era o shopping, acabamos indo lá, havia esquecido que é o dia em que cinema é mais barato e que vai uma galera que já está condicionada a isso de assistir filmes hollywoodianos, etc... Me sentei na praça de alimentação para comer e fiquei observando as pessoas, envolvidas em seus pratos de ilusão e de uma felicidade longe de ser real. Em mesas cheias de solidão e pessoas vazias de coisas que vão além de pagar por um hamburguer e se afogar na infelicidade dentro do copo de refrigerante. Fiquei pensando se essa era a real condição desses tempos contemporâneos, esperar por um fim de dia para usufruir do que resta do vale refeição depois de vendê-lo para pagar algumas contas e saborear o cheddar do lanche, como se fosse somente isso o que a vida pode oferecer...